Assim que saí do quarto do hospital, quando meu pai tinha acabado de morrer, lembro que meu choro era pelo que não tinha sido. (Pirraças que a gente faz com a vida, né…)
 
Fiquei 14 anos sem conversar com ele, só cumprimentava e falava o básico.
Cheguei num ponto de pensar “se ele morrer acho que não vou sentir nada”, tamanha a pedra que tava tapando os sentimentos.
Até que um dia, quando eu estava de cama me recuperando de um tombo e costela machucada, sentindo toda aquela dor física, me deu vontade de falar com ele.
 
Liguei e muito rapidamente chegou na minha casa.
Assentou na minha cama e então, meio que derramando, eu disse tudo que me incomodava, tudo que me doía e estava guardado todos aqueles anos.
Choramos muito e conversamos muito tempo.
 
Depois disso, já conseguia conversar mais com ele, sem morrer de amores, é verdade, mas grande parte daquela pedra tinha saído do meu peito.
Passado um ano dessa conversa, ele morreu.
E ali, ainda naquela sala do hospital, logo depois daquele choro de pirraça, o choro foi virando alívio por ter conversado com ele.
 
E hoje percebo que tenho falado mais sobre as coisas em geral e junto a isso, consigo sentir mais afeto e gratidão por ele.
Engraçado como as coisas são né…
 
Fica o convite à reflexão sobre falar do que sentimos com quem nos importa, mesmo que esteja em uma situação de distanciamento. (Sem que ninguém precise quebrar uma costela pra isso, por favor!)
 
Pode valer mais do que a gente imagina, enquanto está fechado na amargura e na dor.
Obrigada por mais essa lição, pai. Que você esteja bem.

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