Quando fico meio tristonha e não identifico a causa logo de cara, às vezes lembro de uma fase que eu sofri e chorei todo santo dia, durante meses.

Eu era nova ainda, e tava num relacionamento que hoje sei que era psicologicamente abusivo, mas na época eu sofria e pronto_ não questionava.
Só sentia solidão, tristeza e desamparo.

E no meio daquela confusão já insuportável, comecei a trabalhar revendendo uma marca de cosméticos de porta em porta, num sol de rachar o coco _ tudo pra não ficar em casa no meio daquele inferno, pra ver se eu espairecia um pouco e mudava os ares.

Depois ia fazer limpeza de pele nas clientes.

Os períodos que eu ficava fora de casa me davam um alívio passageiro.

Fiquei uns dois meses mais ou menos nesse ritmo. E como eu estava em contato com cosméticos, beleza, cuidados pessoais, clientes, precisava ficar mais apresentável e então comecei a me olhar no espelho pra ir trabalhar.

Até que um dia eu me toquei:
Há quanto tempo eu não me olhava!
E como eu estava horrível!

Eu já sou magra, mas eu estava pura pele e osso_ um caquinho de gente.

Cheguei no espelho de novo e fiquei olhando aquela pessoa ali: parada, triste, sem energia, sem vida, mal cuidada, cabelo horrível, bochecha (que já é pouca) nem existia. Olhos fundos, escuros, e sem brilho a não ser o das lágrimas constantes.

Que coisa né… nunca vou me esquecer do silêncio que ficou no meu coração e na sensação cinzenta que aquela cena teve.
Cinzenta, mas libertadora.

Foi ali que pensei: O que é que EU tô fazendo COMIGO?

Naquele instante, me tomei de uma coragem que nunca tinha tido, e resolvi terminar aquela relação, voltar pra minha família e… ME cuidar.

Pra você ver como o espelho pode salvar a gente vez em quando…

Não o espelho em si, claro, mas o olhar de verdade pra gente.
Um olhar com atenção, olho no olho, reconhecendo o que de verdade tá rolando, e com cuidado.

E ~ esse cuidado ~ é o principal, porque se não existir, fiote… ferrou tudo, porque as pessoas tratam a gente do mesmo jeito que a gente se trata (Ou deixa de se tratar. Ou se deixa ser tratada).

Veja bem: não passo a mão na cabeça de quem abusa em relacionamentos, muito pelo contrário_ acho repugnante e inadmissível. Mas é um problema de caráter da pessoa. Não precisa ser problema de mais alguém, se esse ‘mais alguém’ não permitir.
Não é culpa nossa. Mas é responsabilidade de estabelecer limites, e isso só acontece quando a gente sabe _ e respeita_ quais são eles.

Então, quando não me sinto bem, uma das coisas que aprendi foi a me olhar no espelho.
Me pergunto o que é que tá acontecendo.
Às vezes começo a me cuidar por fora pra ver se aqui dentro dá uma acalmada, clareia minhas ideias e acabo enxergando alguma saída, mesmo que não seja ‘A’ solução.

Então, quando a cabeça ficar fritando, ou quando o coração ficar apertadinho sem saber direito o que é, faça a pergunta mágica:

“Espelho, espelho meu, que é que se assucedeu?”

… e vá se cuidar um bocadinho.